8 | Eu surtei
E sei que você provavelmente também está passando por um momento difícil.
Ei, você.
Como estão as coisas por aí? Imagino que, assim como eu respondo quando me perguntam, você provavelmente pensou “bem… dentro do possível”. Parece ser a realidade que nos acostumamos nos últimos anos.
No meu caso, posso dizer que sim, estou bem comparada aos últimos dias - mas estou longe de estar realmente bem. Mesmo com sonhos sendo realizados (estou lançando meu primeiro livro, caso você não tenha acompanhado a edição 5 e 7 desse nada diário, onde falei mais sobre isso), com um trabalho flexível e desejável, com uma família amorosa, em um relacionamento estável, vivendo numa casa agradável e com seres especiais. Como eu poderia não estar bem?
A verdade é que esse final de semana eu surtei. Mais uma crise depressiva, acompanhada de choro, ataques de pânico, ansiedade. Na minha cabeça, eu tinha tanto a fazer - mas meu corpo não ligou para essas obrigações.
Divulgar o livro, montar um plano de reestruturação para a empresa, escrever o tcc, estudar para prova, arrumar a casa, passar tempo em família, brincar com os bichos, cuidar das plantas, cuidar de mim. Colapsei.
Eu tentei me engajar em alguma coisa, em qualquer coisa que me fizesse sentir que estava caminhando. Tentei aspirar o pó, fazer um sanduíche, aguar uns vasos, escrever uma página - nada. Todas as tentativas me levaram de volta ao chão, à cama, ao caos mental e existencial.
Para quê fazer todas essas coisas quando nada parece fazer sentido?
Meu livro gera desmatamento, por mais que as páginas sejam ditas reflorestadas e “carbono 0” (aquela mentira que nos fizeram acreditar que estamos diminuindo nossos danos ao planeta e deu aval para as grandes empresas seguirem fazendo o que quiserem).
O trabalho incentiva pessoas a viajarem para lugares que estão sendo destruídos por essas viagens - ainda que tentemos abordar outros destinos, falar sobre turismo sustentável, as pessoas sempre querem ir para Roma, Paris, Londres, Barcelona e Veneza. E os moradores que se lasquem e se adaptem.
O computador onde escrevo essa newsletter é fruto de mineração e exploração, comunidades assoladas, solos degradados, rios contaminados por minérios que deveriam estar enterrados.
E confesso, todo o resto já não consegue ter minha atenção - eu estou tomada pelo vício a uma tela que me manipula e me controla ao me manter dopada e distraída. Sim, eu parei pelo menos 3x para olhar o celular enquanto escrevia esse texto, inconscientemente.
Quando olho para fora, vejo monocultura, as plantas sendo envenenadas e meu prato cheio de objetos produzidos em fábrica nomeados de comida. Não, isso não é comida, isso não me alimenta, não me nutre. Ao contrário, me isenta de tudo que eu preciso para ter energia de verdade para viver, pensar, comungar com a Terra que está sob meus pés.
E me pergunto, de que adianta economizar água, cuidar de casa, tentar resisitir ao sistema para “preservar” alguma coisa que resta, quando grandes volumes de terras estão tomadas por assassinos? Nada faz sentido.
Eu peço desculpas a Deus, aos meus guias e protetores, pois meu desejo é sumir, morrer, voltar para casa espiritual de onde eu possa ver de longe esse caos sem contribuir com ele, sem participar, sem me machucar enquanto tento resistir, sem me ver assim - surtada.
Sem ouvir do meu pai que devo investir em IA para diminuir o cansaço do trabalho - essa inteligência estúpida que utiliza milhares de litros de nossa água sagrada para sustentar seus mecanismos, e traz a seca para os seres vivos que deveriam ter o que beber.
Sem ouvir de uma amiga que devo tomar remédio para ficar mais estável - me dopar para aceitar, e continuar a alimentar a indústria farmacêutica que produz o veneno que contamina os corpos e o seu suposto remédio, que está longe de ser a cura.
Sem ouvir da minha mãe que devo ir ao médico para conferir os meus hormônios - individualizar o problema e a solução, procurar em mim uma forma de mitigar a situação.
Eu não estou bem, mas ninguém está, e isso parece tirar o direito de me revoltar. Afinal, como não estamos todos revoltados?
Como estamos todos isolados aceitando essa realidade doente como se fôssemos nós que deveríamos nos adaptar a ela?
O que fizeram conosco? O que nós podemos fazer?
Me escreve?
Depois que um texto sai da gente, deixa de ser nosso.
Após se tornar matéria, só ganha sentido na interpretação, na conexão com um outro ser, nas transformações que ele causa a partir desse encontro.
Dito isso, adoraria saber o que essa escrita despertou no seu coração, se despertou alguma coisa ou não. Se fez sentido, se não faz sentido algum. Sabe? Essas coisas.
Minha caixa de entrada tá aberta pra ti.
Ali



Ali, não sei nem por onde começar a te responder essa newsletter. Há muito tempo também me vejo colada "ao chão, à cama, ao caos mental e existencial." Passei semanas chorando depois de terminar a primeira etapa dessa viagem. Me sentia vazia, suja. Tanto desastre acontecendo no mundo, eu que tanto sonhei ser jornalista política, agora ajudo a máquina de big techs girar, a distrair, a fugir da realidade que não podemos continuar fugindo. Me vi pequena, inútil, impotente e ridícula.
Uma vez, há muitos anos, lembro de quando estava fazendo terapia e a pessoa me indicou ansiolíticos, porque estava atravessando uma crise depressiva. "E não seria normal se sentir assim com tudo isso que estou passando?" Silêncio. É normal, mas não pode ser, porque é preciso trabalhar, é preciso comer, é preciso pagar pra morar, é preciso fé pra não adoecer e precisar de médico. Ninguém pode "estar mal", ter um descanso emocional, ninguém pode se sentir assim.
E pior, se ver colada às redes sociais sempre que me sinto assim. Me hipnotiza e me faz esquecer as dores que é a realidade, seja a nossa própria ou a dos outros. Nos confortam com sentimentos gostosos quando deveríamos todos estar sentindo muita, muita, muita raiva. Toda a raiva do mundo.
E mesmo sabendo e falando isso, me vejo caindo para o outro lado. O lado que ajuda a não sentir, a não agir, a não mobilizar. Me sinto constantemente num limbo entre o trabalho que venho construindo e amo, mas que num momento do mundo como esse me sinto ridícula, uma verdadeira imbecil.
No fim, não tenho uma resposta. Só queria compartilhar que eu me vejo em você, no seu texto, nas tuas angústias. Obrigada por compartilhar 💛 é bom não se sentir sozinha nessa desgraça.
Parabéns pela coragem, muito bom te ler. Me reconheço em alguns sentimentos, sempre associados à esse momento crítico sobre a questão socioambiental mesmo… Isso toma grande parte dos meus pensamentos. Quando não, geralmente estou na luta de alguma forma. Ou a luta, ou a depressao. Os dois juntos é muito difícil. Isso também se relaciona com os sonhos da terra, os filhos e filhas da terra sonham os sonhos da mãe, segundo Krenak. Acho que seus sonhos estão conectados com sua missão, e você está realizando seus sonhos. Talvez não te ajude ler, mas eu gostaria de saber que meus sonhos andam alinhados com o da terra, e que estamos na luta assim. Escrever sobre seus sentimentos, se vulnerabilizar com reflexões transformadoras, escrever sobre amor, tudo isso é necessário nessa luta. Precisamos de todo mundo. Desejo que você não seja mais atropelada pela luta e consiga se sentir bem logo. Podia não ser tão cansativo. Espero que um dia não seja. Salve sua força!